Como agir e lidar diante do momento atual da crise financeira
Por: Enio Willian
A crise financeira mundial e seus reflexos
A crise iniciada nos EUA, no setor imobiliário, se estendeu para a área financeira e se alastrou para o mundo. Com isso, vários países sofrem esse efeito que adquiriu dimensões gigantescas provocando quebras de vários bancos norte americano. O certo é que os países vivem uma grande crise financeira mundial. São os efeitos da globalização. A interdependência entre as economias faz com que crises deixem de ser isoladas e tomem proporções que extrapolam os limites territoriais de um país. Tão certo como as crises afetam outras nações, também afetam os indivíduos. Muitos americanos estão altamente endividados em decorrência desse efeito que já se tornou global.
No Brasil, vários setores já sentem também esses efeitos. O dinheiro ficou mais escasso e, consequentemente, mais caro para as pessoas e empresas.
Os reflexos no orçamento familiar
Em momentos como esse, é preciso ter muitos cuidados, principalmente porque ainda não sabemos que dimensões ela ainda pode alcançar e quais outras surpresas podem vir. É preciso ter cautela também no orçamento doméstico, nos gastos familiares, ou seja, nas finanças pessoais, pois crises internacionais também afetam as famílias. Estudos mostram que muitas pessoas ainda não têm conhecimento sobre orçamento doméstico, sentem dificuldades para controlar seus gastos. Muitos sequer sabem fazer um simples planejamento financeiro. Os jovens tem sido a maioria. A sedução pelas propagandas e o forte apelo ao consumo exagerado fazem com que muitos adolescentes iniciem a juventude já endividados. Uma das principais causas desse endividamento é o uso inadequado do cartão de crédito e a falta de educação financeira. Quando chegam crises como essas, muitos se vêem perdidos e sem saber o que fazer.
Lidando com isso
Uma boa administração do orçamento doméstico é vital em qualquer tempo, mas em momentos de crises como essa, é recomendável evitar a contração de empréstimos e financiamentos porque os juros são altos. O momento atual é de cautela e de decisões conservadoras. O Brasil possui a maior taxa de juros do mundo, perdendo apenas para a Turquia. O acesso ao crédito está melhorando, mas o dinheiro ainda continua escasso. Conseguir crédito agora é mais complicado e pode comprometer toda a estrutura financeira de uma família inteira. Em casos de necessidade, é preciso se planejar muito bem para não perder o controle financeiro. O consumidor deve pesquisar, dentre as instituições financeiras, aquelas que oferecem a menor taxa de juros. Mas, em qualquer situação, não é recomendável comprometer mais que 30% da renda com financiamentos ou compras parceladas, principalmente aquelas de longo prazo. O aconselhável é comprar aquilo que seja realmente necessário e fazê-lo a vista ou com a menor taxa de juros possível. Para isso, é preciso uma mudança de hábitos, de comportamento, na maneira de lidar com o dinheiro. Enfim, uma reeducação financeira.
Sair das armadilhas do mau uso cartão de crédito não é tão difícil assim. Em primeiro lugar, evite sair com ele porque assim, o impulso por comprar coisas desnecessárias são diminuídos. Se a pessoa vai numa consulta médica, por exemplo, não há necessidade de se carregar um cartão de crédito ou talões de cheques. Isso evita compras sem necessidade e transtornos em situações de perda ou roubos. Depois, evite pagar o valor mínimo da fatura e use esse instrumento apenas em casos considerados urgentes e necessários.
Em segundo lugar, em caso de uso, prefira usá-lo na opção “débito”, onde o valor da compra é debitado na conta bancária do cliente em tempo real. Com isso, evita-se que juros sejam embutidos na operação. Desse modo, a compra só é efetivada se a pessoa já tiver uma pequena poupança disponível em conta.
Para aqueles que possuem dívidas, o correto é procurar quitá-las o mais rápido possível. Em primeiro lugar, é preciso pagar as dívidas que contém juros embutidos tais como as faturas do cartão de crédito e o cheque especial, onde as taxas são altas, dentre outros. Evite contrair outro empréstimo para quitar dívidas de empréstimos efetuados anteriormente. As taxas de juros podem ser maiores do que a da dívida atual. Só é recomendável esse tipo de estratégia quando a taxa de juros do novo empréstimo for menor do que a do empréstimo anterior na qual se pretende eliminar e o número de parcelas devem ser reduzidos.
Aproveitando a crise para investir
O momento agora é destinar o dinheiro que sobra no final do mês para investimentos e não para ampliar ainda mais o consumo. Se não sobra dinheiro para uma poupança, então algo está errado e precisa ser ajustado. Com juros altos praticados na economia, sobe também os juros de algumas aplicações financeiras de renda fixa. É uma boa alternativa para quem deseja aproveitar os momentos de juros altos na economia. A taxa básica de juros (a SELIC) é usada tanto como referência para os empréstimos e financiamentos como também para a remuneração de algumas aplicações financeiras. Algumas opções são os CDBs, e os títulos do governo considerados de menor risco.
Para quem não quer correr riscos
Se seu perfil é conservador, daqueles que não estão dispostos a correr muitos riscos, investimentos em renda fixa são ótimas opções. É recomendado destinar, no mínimo, 10% da renda para a formação de uma poupança. Não se pode gastar tudo o que se ganha, pois assim, a pessoa fica sem nenhuma proteção contra imprevistos.
Para aqueles que tem ganho equivalente a R$ 1000,00 por mês por exemplo, uma boa recomendação seria poupar algo em torno de R$ 100,00 mensais. Se os objetivos dessa poupança for para serem usados em períodos inferiores a dois anos, aplicações em Renda Fixa são boas opções de investimento. Para uma aplicação com rendimento líquido de 0,8% ao mês, em dois anos, o montante será igual a R$ 2655,39. Se esse prazo fosse estendido para cinco anos, considerando as mesmas taxas de juros mensais, o valor total seria de R$ 7723,69. Ou seja, R$ 1723,69 seriam ganhos apenas com os juros dessa aplicação.
Para aqueles que conseguem poupar R$ 150,00 mensais, poderiam acumular R$ 11585,53 nos mesmos cinco anos. Nesse caso, os juros seriam responsáveis por R$ 2585,53 do total acumulado. Uma pequena diferença nos valores dos depósitos e o prazo resultam em diferentes saldos. Os mesmos R$ 150,00 aplicados na Caderneta de Poupança, a uma taxa de 0,65% resultaria num montante total de R$ 11035,53 em cinco anos.
O consumo responsável deve ser mantido para a boa manutenção familiar, mas o consumismo precisa ser evitado. Por outro lado, a poupança deve ser estimulada. Muitos ainda não têm o hábito de poupar e outros o fazem esporadicamente. O correto é adquirir esse hábito, e fazê-lo de forma regular, ainda que com pequenas quantias mensais.
Aplicações em renda variável
Para aqueles que possuem objetivos de longo prazo, o mercado de ações pode ser uma alternativa bastante interessante para se investir. Primeiro, porque a rentabilidade dessa aplicação tende a ser superior as demais, se analisadas no longo prazo e, segundo, porque os preços dos principais papéis negociados na Bolsa de Valores de São Paulo (a BOVESPA) estão subvalorizados. Ou seja, eles estão muito baratos agora e podem se valorizar muito nos próximos meses ou anos. Mas, podem não apresentar o resultado desejado. Por isso, é necessário muita calma para colher os bons frutos nesse tipo de mercado. Para quem dispõe de pouco recursos, uma opção são os fundos de investimentos que administram essas aplicações para você.
Em 2007, quando a crise financeira mundial não despontava no Brasil, a rentabilidade média de alguns fundos de investimentos em ações alcançou 30% a 40% no ano. As ações da Petrobrás e da Companhia Vale do Rio Doce valorizaram mais de 85% em 2007. Algo incomum. Hoje, com os papéis em forte baixa, os preços têm altas chances de subirem novamente. O rendimento médio para os próximos dois anos tendem a ficar em torno de 25% a 30% considerando o Índice Bovespa. Mas, como se trata de aplicações de renda variável, não é possível se fazer nenhuma afirmação quanto à rentabilidade. Mas, o histórico de rendimentos do IBOVESPA tem mostrado bons resultados para aqueles que resolvem esperar com paciência.
Antes de optar por esse tipo de aplicação, monte uma reserva de emergência suficiente para cobrir as despesas básicas por um período de, no mínimo, seis meses.
Construindo uma reserva de emergência
Antes de sair por aí colocando seu dinheiro em qualquer tipo de aplicação financeira, é recomendável se atentar para algumas observações importantes. Em primeiro lugar, construa primeiro uma reserva de emergência até que ela seja suficiente para manter a pessoa por um período entre três a seis meses. Esse valor deve ficar em lugares considerados seguros como a Caderneta de Poupança por exemplo.
O momento atual é de bastante cautela e muito planejamento, mas também é um momento de oportunidades.